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O belo verso poético “ser ou não ser, eis a questão” continua a ser tão elusivo e enigmático quanto o era séculos atrás, quando foi escrito pelo grande mestre da poesia, do drama e da prosa William Shakespeare.
O fato é que nós estamos em um estado ou noutro ou, algumas vezes, nos dois simultaneamente.
De um ponto de vista superficial, esses dois aspectos poderiam ser considerados contraditórios e opostos e não poderiam ser conciliados.
Se “ser” se refere ao interior, “não ser” significa o exterior.
Se um é sutil, o outro é denso.
Se um é espiritual, o outro é material.
“Não ser” poderia também ser interpretado filosoficamente como “possuir ou ter”. Portanto, esse verso poderia ser refeito: “Ser ou ter, eis a questão”.
O significado do “ter” poderia ser estendido para incluir poder, orgulho, egocentrismo, enquanto “ser” significaria humildade, altruísmo, consciência cósmica etc.
Nós podemos observar a história e encontrar exemplos de pessoas que se inclinavam principalmente para o “ter” ou para o “ser”.
Grandes magnatas como Howard Hughes, que se devotou à possessão de riquezas e foi dominado pelo egoísmo, ou magos dos negócios como Aristóteles Onassis, que perseguia o prazer, a posse e o egocentrismo, ou ainda ditadores abomináveis como Adolf Hitler, fascinado pelo poder e pela dominação do mundo, todos eles morreram sem deixar algo que valha a pena ser lembrado.
Por outro lado, nomes de personalidades exemplares como Dr. Albert Schweitzer, Mahatma Gandhi, Martin Luther King, Madre Teresa de Calcutá, Irmã Dulce de Salvador, Dom Helder, Abraham Lincoln, Madame Curie, Swami Sivanda, entre outras, serão sempre lembrados com reverência e respeito, por sua dedicação a causas justas e seu espírito de altruísmo.
Na vida, para a maioria de nós, há uma necessidade de evoluir do ser e do ter para o tornar-se.
Tornar-se é um processo dinâmico que requer reconsideração e reavaliação de nossos valores, sucessos, metas e objetivos. Na realidade, o processo de harmonização entre o ser e o ter levará progressivamente a tornar-se o que é um grande autodesenvolvimento para solucionarmos pragmaticamente os problemas da vida e enfrentarmos as diversas situações equilibrada e serenamente.
O desenvolvimento significa uma abordagem multidimensional da vida digna de ser vivida e sua transformação progressiva em tornar-se.
Uma mistura saudável de trabalho profissional e hobbies refinados não só melhoraria a qualidade de vida, mas também tornaria o indivíduo mais alegre, compreensivo, compassivo e tolerante.
Isso também o levará de um estado de estresse a um desempenho mais eficaz de suas responsabilidades.
O famoso filósofo britânico, matemático e pacifista Bertrand Russel dizia muito acertadamente que a verdadeira marca da nossa civilização será julgada pelo que nós tivermos feito com nosso tempo livre.
Hobbies como ouvir e cantar música, pintar, colecionar selos, escrever, ler, viajar, cozinhar, praticar jardinagem, fazer trabalhos sociais e altruísticos, fotografar, estudar línguas ou qualquer outra atividade para a autocultura ajudarão a despertar a sensibilidade e a consciência ecológica.
Pessoas que têm tais hobbies podem estar sozinhas, mas não se sentem solitárias. Seus hobbies lhes fazem companhia.
Na realidade, fazer o seu trabalho com um profundo sentido de responsabilidade pessoal, qualquer que seja a natureza, levará a uma harmonia entre “ser”, “ter”e vir-a-ser (tornar-se).
Deve-se, no entanto, fazer a distinção entre o egocêntrico workaholic (viciado em trabalho), cujo objetivo principal é dinheiro, posse e poder, e o trabalhador eficaz que sabe harmonizar entre trabalho e hobby, vocação e avocação.
Na realidade, “tornar-se” pressupõe conhecer a si mesmo. No entanto, para nos conhecermos em todos os níveis – consciente, inconsciente, subconsciente e supraconsciente –, é necessário um estudo honesto e objetivo de nós mesmos.
Devemos conhecer nossas tendências e inclinações, nossas virtudes e defeitos, nossos pontos fortes e nossas fraquezas. Aprender sobre nós mesmos é em si um processo, o qual, como qualquer pesquisa, requer tempo, dedicação e esforço.
A chave para o autoconhecimento é a meditação.
Meditação praticada regular e sistematicamente, mesmo que somente por alguns minutos diariamente, nos possibilita conhecer nossa verdadeira natureza. Além disso, ela cria determinação para nos guiar na direção desejada.
Os efeitos colaterais da meditação são muito positivos e pragmáticos: intuição e criatividade, afetividade e efetividade que resultam em saúde psicossomática e bem-estar geral.
A meditação é uma ciência vivencial.
Ela deve ser experimentada e vivenciada por cada indivíduo.
A reflexão, a contemplação e a oração reforçam o crescimento interior por meio da meditação.
Em outras palavras, ter um hobby, praticar a meditação e desempenhar bem nossas responsabilidades facilitará a harmonia entre “ser” e “ter” e nos ajudará a evoluir para nos “tornarmos” o que gostaríamos de nos tornar.
Notas:
1. Adaptado do artigo do mesmo título extraído do livro: ARORA, H. L. A ciência moderna a luz da yoga milenar. Rio de Janeiro: Nova Era, 1999.
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