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Primeiro de tudo, eu gostaria de agradecer a imensa honra de estar aqui diante de jovens magistrados. Agradeço o convite que – permitam que eu o receba desta forma – significa o reconhecimento de minhas quatro atividades profissionais: advogado, jornalista, escritor e cozinheiro. Nessas quatro atividades, o escritor inspira as outras: é o escritor que cuida da incessante busca (raras vezes obtida) de excelência nas petições do advogado, nos textos jornalísticos, nos roteiros dos programas de TV e até, acreditem, na descrição das receitas culinárias.
Em uma troca de ideias que tivemos, o Dr. Cândido Leal fez uma aproximação entre escrever e cozinhar – e eu acho que ele pensou bem... Escrever tem tudo a ver com cozinhar.
Iniciei minha vida profissional como jornalista e, antigamente, nas redações dos jornais, em vez da imensa fila de jovens tristes, lado a lado, calados e iluminados pela luz branca dos computadores de hoje, havia a “cozinha” dos jornais, a mesa ampla do “copidesque” em torno da qual ficavam os redatores experientes, jovens e velhos. Apesar dos tempos de censura e nuvens negras, acho que nos inspirávamos nas esperanças da Comuna de Paris, tínhamos a ambição de tomar o céu de assalto... E todos riam, gritavam, falavam alto, trocavam ideias, “cozinhavam”... O jargão usado era este: “cozinhar” as matérias. Fazia sentido. A ideia era dar cor e sabor aos textos muitas vezes insossos dos repórteres.
Escrever e cozinhar têm muito em comum. A ideia da elaboração... Ouçam o que o Professor Laudelino Freire, no seu Grande e novíssimo dicionário da Língua Portuguesa, uma das estrelas da biblioteca do Dr. Thompson Flores, escreveu no verbete “elaboração”: “Ação ou efeito de elaborar, preparar, concluir, aperfeiçoar. / Trabalho graduado. / Preparar ou arranjar, a pouco e pouco, com trabalho (...). / 2. Formar, organizar. / 3. Dispor as partes; pôr em ordem; ordenar”. Quem escreve busca tudo isso, é o mesmo que o cozinheiro: e mais o equilíbrio, a graça, o encantamento, a surpresa...
Por isso, por essa posição central do escritor, eu vim aqui, como escritor, neste encontro com juízes, que também são escritores. Juízes são profissionais que têm o dever e – digo mais! – o privilégio de escrever profissionalmente. Para tanto, fiz o mínimo que eu poderia fazer: escrevi este texto, como forma de prestigiar este encontro de escritores.
Começo com um colega nosso que há mais de um século comove seus leitores.
Começo com Marcel Proust.
No precioso livro da correspondência de Marcel Proust com seu editor Jacques Rivière, na página 31, depois de uma empenhada troca de correspondência em que ambos divergiam sobre a forma de editar um dos livros de Proust, o grande escritor encerrou o debate, enviando a carta que se inicia com uma frase que sintetiza o poder da palavra escrita: “Cher ami: Vos raisons ne me convainquent pas, mais vos amicales paroles me décident” [Caro amigo: Suas razões não me convencem, mas suas palavras amigáveis me decidem].
Isto é, os fatos – vale dizer, as razões, os fundamentos – trazidos pelo editor Rivière na amável divergência com o escritor Proust não foram suficientes para o convencimento. Mas as palavras amigáveis, isto é, o texto escrito e sua articulação, fizeram com que o escritor se decidisse – e se curvasse. Embora não convencido, ficou vencido.
Nós, advogados, procuradores, magistrados, operadores do direito, somos habitantes desse mundo etéreo e impalpável, de palavras e argumentos. Somos escritores. Nós não trabalhamos com a realidade, mas sim com uma representação da realidade. Reconstruímos o mundo real em palavras, na esperança de uma boa aproximação. Mas os fatos reais e a representação da realidade não se confundem.
Mesmo quando tento falar de mim mesmo, eu não sou o que digo. O autorretrato é limitado, eu não sou ele. Vale o exemplo usado pela escritora Ruth Ozeki: “(...) se você olhar um pintor ao lado do autorretrato que ele pintou de si mesmo, jamais confundirá os dois. Um é a pessoa do pintor, o outro, o quadro pintado por ele”.
Freud já advertia que “o homem é dono do que cala e escravo do que fala”, porque as coisas que dizemos ou que escrevemos são traiçoeiras: “quando Pedro me fala sobre Paulo, sei mais de Pedro do que de Paulo”, dizia Freud.
O grande escritor argentino Ricardo Piglia escreveu que “a verdade tem a estrutura de uma ficção onde o outro fala. É preciso fazer da linguagem um lugar para que o outro possa falar”. Piglia lembra um ensaio de Brecht intitulado Cinco dificuldades para escrever a verdade. É preciso ter, dizia Brecht, em relação à verdade, a perspicácia de descobri-la, o valor de escrevê-la, a arte de fazê-la funcionar, a inteligência de saber eleger os destinatários e, sobretudo, a astúcia de saber difundi-la.
E esse é o nosso combate: enfrentar com sucesso os cinco desafios de Brecht. São os desafios que me perseguem quando postulo, como advogado, perante os juízes e os tribunais; na expectativa de que, se duvidarem das minhas razões, pelo menos acreditem em minhas palavras.
Portanto, todo o cuidado é pouco com as palavras que vamos usar em nossas petições e em nossas sentenças. A qualidade de nossos textos é crucial.
O editor de Jorge Luis Borges, Carlos Frias, diretor editorial da Emecé Editores, de Buenos Aires, certa vez sugeriu que Borges utilizasse o prólogo de um de seus livros para fazer uma espécie de “declaração estética”, isto é, observações sobre o que ele considerava princípios fundamentais para tornar um texto elegante e interessante. O grande escritor relutou, relutou... Mas, enfim, Jorge Luis Borges aceitou escrever alguns conselhos preciosos para nós que temos a escritura como dever:
“O tempo ensinou-me algumas astúcias: evitar os sinônimos, que têm a desvantagem de sugerir diferenças imaginárias; evitar regionalismos, arcaísmos e neologismos; preferir as palavras habituais às palavras extravagantes; intercalar em um relato rasgos circunstanciais (...); simular pequenas incertezas, já que, se a realidade é precisa, a memória não o é; em Kipling e nas sagas da Islândia aprendi a narrar os fatos como se não os entendesse totalmente; mas vamos recordar que as normas anteriores não são obrigações e que o tempo se encarregará de aboli-las. Tais astúcias ou hábitos não configuram certamente uma estética. Além do que, descreio das estéticas. Em geral não passam de abstrações inúteis; variam para cada escritor e ainda para cada texto e não podem ser outra coisa que estímulos ou instrumentos ocasionais.”
Gosto de escutar outro conselheiro. O norte-americano Gay Talese é também exemplo de escritor que brilha pela alta qualidade do texto. É um dos astros do chamado “novo jornalismo”, que trata a notícia com a tinta da literatura. Talese, hoje com quase 80 anos, continua trabalhando e publicando intensamente. Seus livros são muito bem pesquisados e bem escritos. Ele escreve não ficção com o estilo de ficção. Cada reportagem parece um romance. Diz que o rigor e a elegância do texto ele herdou da técnica do pai alfaiate:
Ele fazia cada terno ponto por ponto, evitando o uso de uma máquina de costura, porque queria sentir a agulha em seus dedos ao trabalhar um corte de seda ou lã, e avançava a uma velocidade de lesma na costura de um ombro ou de uma manga. Se qualquer trabalho seu não alcançava o nível que ele definia como ‘perfeito’, punha-o de lado e recomeçava. Ele esperava criar a ilusão de uma roupa inconsútil, alcançar a expressão artística com agulha e linha.”
Inconsútil – exatamente na definição dessa palavra se define a excelência do texto de Gay Talese: “não consútil; sem costuras (diz-se especialmente da túnica de Cristo); feito de uma só peça; inteiriço”.
Para chegar a isso, Talese revela que “escrever é como dirigir um caminhão à noite, sem faróis, errando o caminho”. Na apuração dos fatos, esses erros de caminho inevitáveis custam caro: “durante 40 anos de minha carreira como escritor-pesquisador, investi pesadamente na perda de tempo”.
Em seguida à apuração, escrever não é menos penoso: “produzo texto com facilidade comparável à de um paciente que expele pedra dos rins”.
Conheço bem essas dificuldades. Nas quatro profissões, o uso da palavra e a busca da harmonia têm sido a minha obstinação. Antes de encerrar, e para nos inspirar, um parágrafo de um escritor russo, Konstantin Paustovsky:
“Uma comparação deve ser precisa como uma régua de cálculo e natural como o perfume do feno. Sim, esqueci de dizer que, antes de eliminar as escórias verbais, divido o texto em frases ligeiras. O mais possível de pontos! Esta é uma regra que incorporaria em lei do Estado, para uso dos escritores. Cada frase corresponde a um pensamento, a uma imagem, não mais. Assim, não tenhais medo dos pontos. Talvez minhas frases sejam muito curtas. Isso se explica, em parte, pela minha asma. (...) Esforço-me por banir do manuscrito quase todos os particípios e gerúndios e não deixo senão os mais indispensáveis. Os particípios tornam a língua angulosa, sombria, e matam a melodia. Rangem como carroças que rodam sobre um piso de pedras. Empregar três particípios em uma frase leva à morte do estilo. O gerúndio é, apesar de tudo, mais ligeiro do que o particípio. Confere, por vezes, à língua algo de aéreo. Mas o abuso do gerúndio a torna flácida e esganiçante. Considero que o substantivo não exige senão um adjetivo, o melhor escolhido. Só um gênio pode permitir-se dois adjetivos para o mesmo substantivo. (...) Em prosa, o traço deve ser firme e nítido como uma gravura.” (PAUSTOVSKY, Konstantin. Babel. In: Critique. p. 68-69)
São pequenos cuidados que nós, escritores, temos que ter para – como queria Proust –, quando nossas razões não convencem, que, pelo menos, nossas palavras decidam.
A última palavra é a que fica.
Eu gostaria de me inspirar na última palavra de Prometeu: “Resisto”. É o que tenho feito nos últimos 45 anos, atuando como advogado, jornalista, escritor e cozinheiro.
Comecei falando na estreita relação do texto com a gastronomia. Bem a propósito, para encerrar, lembro a insuperável experiência vivida pelo grande pintor espanhol Salvador Dalí, que se aprontava para comer um preparado de fígados de gansos assado envolvido em massa folhada, o pâté en croûte, quando o cozinheiro veio à mesa, cumprimentou o grande pintor, respeitosamente, e explicou que aquele patê tinha sido feito de forma meticulosa, em demoradas etapas e com requintadas minúcias, a partir de gansos escolhidos, criados com um método especial, segundo a tradição secular, usando técnica ensinada em sua família pelo seu pai, que aprendeu com seu avô, que aprendeu com seu bisavô, por sucessivas gerações de mais de 200 anos, para que os fígados ficassem perfeitos. Enfim, até aquele pâté en croûte chegar à mesa, fora uma longa sucessão de pequenos rituais seculares visando à excelência. Salvador Dalí ouviu o cozinheiro atentamente. Depois, deliciado, degustou a iguaria bem devagar e confessou:
“Este mesmo patê, sem aquele discurso do cozinheiro, eu o teria engolido distraidamente. É preciso que me digam que um prato é excepcional para que minhas papilas gustativas estremeçam.”
Notas
1. Texto de palestra proferida no Curso de Formação Inicial na Carreira da Magistratura da 4ª Região, promovido pela Escola da Magistratura do TRF4, em 30.06.2015.
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