Relato de experiência

Autora: Ana Cristina Monteiro de Andrade Silva

Juíza Federal, Mestre em Direito do Estado (PUC/RS), Professora da Esmafesc e do Curso de Pós-Graduação em Direito Previdenciário da Unoesc, Coordenadora do submódulo de Gestão de Pessoas do Curso de Formação Inicial dos juízes do TRF4 em 2015

publicado em 28.10.2016



Sou juíza federal de primeira instância há quinze anos e jurisdiciono, hoje, na 1ª Vara Federal de Joaçaba, pertencente ao Tribunal Regional Federal da 4ª Região. No ano de 2015, tive a oportunidade e a grata satisfação de atuar como formadora junto à Enfam nos seguintes cursos: Formação de Formadores, realizado em Porto Alegre, de 24 a 26 de junho; Gestão de Pessoas (presencial), em Salvador, nos dias 16 e 17 de julho; e Formação de Formadores, em Salvador, de 16 a 18 de setembro. Na modalidade ensino a distância, atuei como tutora no primeiro semestre e, atualmente, está em andamento um segundo curso de Gestão de Pessoas, em EaD, no qual estou atuando também.

Foram oportunidades riquíssimas em termos de aprendizado, de troca de experiências e de convivência com servidores e colegas juízes pertencentes à Justiça Federal e à Justiça Estadual.

O curso Formação de Formadores, chamado Fofo, é realizado em diversos lugares do país. A equipe de juízes formadores, de servidores e de pedagogos da Enfam se desloca para a cidade onde é realizado o curso para juízes federais e estaduais. Até agora já tivemos cinco versões do curso Fofo pelo Brasil. Tive a oportunidade de participar de duas: em Porto Alegre e em Salvador. 

Nesses cursos, o primeiro dia foi sempre ministrado por nós, juízes formadores. Inicialmente, tratamos de integrar a turma de juízes e servidores que estava fazendo o curso e, aos poucos, fomos introduzindo os métodos pedagógicos ativos. Em Porto Alegre, por exemplo, iniciamos com trechos do filme O sorriso de Monalisa e fizemos a provocação para que se colocassem no lugar da professora que dá aula para alunos que dizem saber tudo, traçando um paralelo com a desafiadora função de formar juízes com formação acadêmica e profissional e vivência bastante abrangentes. Aplicamos ainda dinâmicas como GVGO (Grupo de Visualização, Grupo de Observação), simulações, dramatizações, Philips 66, brainstorm, intercalando com o método expositivo. Nesse primeiro dia, não há aprofundamento sobre noções pedagógicas. Os métodos ativos são simplesmente experimentados. O formato do curso, com o primeiro dia ministrado por juízes, tem se revelado acertado e diminui a resistência dos juízes em formação diante do novo conhecimento proposto. Isso porque, como referido por Armytage,(1) a pessoa do juiz sintetiza o aprendiz adulto, caracterizado por: autonomia e autodirecionamento; preferência pela construção do conhecimento baseado em sua própria experiência; necessidade de perceber a relevância do aprendizado ante a aplicabilidade imediata. A empatia criada entre um juiz formadore um juiz em formaçãopode ser facilitadora do aprendizado. Isso porque membros de uma classe profissional específica compartilham dos mesmos processos humanos básicos, tais como motivação, cognição e emoções. Ao escrever os dois primeiros princípios norteadores da educação judicial, Armytage sustenta:

“1. Natureza judicial da escola: há um imperativo doutrinário acerca da educação judicial no sentido de que ela deva ser dirigida por juízes e ficar a cargo dos tribunais, a fim de que seja bem-sucedida no fortalecimento de um judiciário profissional e independente (...). 2. Capacitação do corpo docente: a capacitação de juízes deve ser, sempre que possível, realizada por seus pares, para lhes assegurar maior legitimidade. Para isso, é necessário um contínuo programa de capacitação e formação de formadores.”  

É inegável que a proposta dos cursos de Formação de Formadores trazida pela Enfam é bastante inovadora e quebra antigos paradigmas, já bem solidificados no Poder Judiciário em que vivemos, hierarquizado e conservador. Propomos, por meio dos ideais da Enfam, uma mudança total de rumos. Se antes pensávamos que o professor era o sábio detentor do conhecimento e o aluno, o sujeito passivo, ignorante, no Fofo propomos que o aluno seja o protagonista do processo de aprendizagem e que o conhecimento possa ser construído coletivamente, com a colaboração de todos. Se antes imperava o método expositivo afirmativo, propomos, no Fofo, a adoção do método ativo, demonstrando inclusive o grau de eficácia deste último, considerando que lembramos mais facilmente e somos capazes de aplicar com maior eficácia aquilo que vivenciamos. Para muitos juízes, essa nova proposta choca, porque trata de desconstruir o que já foi feito por anos e se tinha como verdade absoluta. Por isso, o início do curso com colegas juízes formadores trata de amenizar essa resistência, afinal, a pedagogia é um saber estranho para os magistrados e servidores do Poder Judiciário. Começamos vivenciando os métodos ativos para então, a partir do segundo dia, fazermos um mergulho no mundo pedagógico e conhecermos com mais profundidade no que consistem realmente esses chamados métodos ativos.

Verifiquei que em cada região do Brasil temos realidades distintas. Tive duas experiências muito diferentes: Porto Alegre e Salvador. No sul, encontramos mais resistência e posicionamentos críticos, e foi necessário lançar mão das mais diversas técnicas, flexibilizando a programação e alterando algumas dinâmicas para atender às necessidades do grupo. Já na capital baiana, encontramos mais acolhimento e receptividade, sendo que nossos desafios foram centrados em evitar a dispersão e melhorar a motivação do grupo. Urge que o juiz formador tenha sensibilidade para entender essas diferentes realidades locais, culturais, e seja capaz de se adaptar às necessidades da turma, mesmo que isso importe em alteração do planejamento antes elaborado. É preciso ter capacidade de improviso, algumas atividades extras (as chamadas “cartas na manga”), bem como pensar na possibilidade de encurtar ou suprimir algumas atividades caso o tempo não permita realizá-las. O engessamento, de ficar preso ao plano de aula inicial, certamente não alavancará os resultados.

Quando falamos em método ativo, muitos tendem a pensar que essa mudança de metodologia seria aplicável somente nos cursos presenciais. Enganam-se. A metodologia ativa é também aplicável aos cursos a distância. Como comentei inicialmente, tive a oportunidade de ser tutora em curso a distância promovido pela Enfam sobre Gestão de Pessoas. O curso foi desenvolvido de forma assíncrona, isto é, tutor e participantes não precisam estar ao mesmo tempo logados. A cada unidade, era oferecida uma leitura sobre o tema da semana: Liderança, Delegação, Comunicação e Desempenho. Disponibilizamos também trechos de filmes sobre o tema a cada unidade e, após, o aluno era instado a participar do fórum de discussões. Nesse momento, trazia sua experiência relacionada ao tema em questão, seus problemas e seus desafios e fazia um link com a parte teórica da unidade. Como tutora, respondia a cada postagem, sempre com novas perguntas e provocações, para que o aluno deixasse sua zona de conforto e partisse para uma atitude transformadora de modo a melhorar sua performance. Utilizei-me, nessa oportunidade, da técnica das “perguntas poderosas” que aprendi em minhas formações de coaching. As chamadas perguntas poderosas tratam de impactar nosso sistema neuronal para que a solução seja encontrada. Conforme Anthony Robbins,(2) as perguntas realizam três coisas específicas: mudam o que focalizamos e, em consequência, como sentimos; mudam o que suprimimos; e mudam os recursos à nossa disposição. Mesmo que o cérebro responda, a princípio, que não há nada que possa ser feito, se o tutor persistir com as perguntas, obterá as respostas de que o participante precisa, além de fazê-lo sentir-se melhor, modificando seu estado emocional. As perguntas, em vez de apenas animá-lo, proporcionam razões concretas para sentir as emoções, pois podemos mudar como nos sentimos pela mudança de foco. Por meio das perguntas, o participantetoma consciência do que quer e descobre seu antigo padrão limitador. Para modificar esse padrão, seria interessante perguntar: “Se você não mudar isso, qual será o preço final? Quanto lhe custará em longo prazo? Quanto sua vida seria transformada se fizesse isso agora?”. Para que o participantemelhore seu estado, podem-se fazer as seguintes perguntas fortalecedoras: “O que é maravilhoso em sua vida hoje? Pelo que se sente sinceramente agradecido?”. As perguntas, por seu turno, também mudam o que suprimimos, isto é, se se sente triste, é porque está suprimindo as razões que pode ter para se sentir bem, e, se sente bem, é porque está suprimindo os aspectos negativos que poderia estar focalizando. Por isso, é relevante que se indague: “Como você pode aprender com esse problema a fim de que isso nunca mais torne a acontecer?”. Essa pergunta afasta o problema atual para encontrar recursos que possam evitar que o participantesinta a repetição dessa dor no futuro. Do mesmo modo, as perguntas podem ter o condão de mudar os recursos à nossa disposição. Diante de um problema que aparenta ser de difícil solução, podemos perguntar: “Como você pode inverter a situação?” ou “Como você pode acrescentar ainda mais valor e ajudar mais pessoas com seu trabalho?”. As perguntas, assim, podem moldar nossa percepção de quem somos, do que somos capazes e do que estamos dispostos a fazer para realizar nossos sonhos.

O tutor, no processo de educação a distância, além de dominar o tema, tem a função de estimular o aprendizado e indicar novas possibilidades de aprendizado, como leituras, filmes. Deve ainda manter o clima de harmonia entre os participantes e estimular a comunicação e a partilha de vivências e informações entre os próprios participantes do curso. Nesse sentido, como frisam Ferreira e Lobo(3) (2003, p. 10-11),

“Seja qual for o ambiente que o tutor de ensino a distância esteja utilizando, é importante que ele saiba mediar grupos heterogêneos, mantendo a harmonia do curso e estimulando permanentemente a participação dos alunos, respeitando suas diferenças e o seu processo de construção de aprendizagens. É importante ainda que ele permaneça durante todo o curso incentivando e mantendo o interesse do grupo pelo estudo, tendo o cuidado de não parecer apenas um animador que apoia ou estimula, mas que também é conhecedor do tema e que, por isso, deve questionar e sugerir a ampliação do conhecimento, sugerindo sites, leituras complementares, para aprofundamento do tema, participação em listas de discussão, seminários etc.” 

Na modalidade de EaD, o aluno, assim como na forma presencial, é chamado a adotar o método ativo de aprendizagem. Behrens(4) (2000) demonstra que, na realidade do EaD, o aluno precisa sair da condição de sujeito passivo, que só escuta, lê, decora, para tornar-se criativo, crítico, atuar como pesquisador e interagir constantemente com o conhecimento, com os colegas e com o tutor. Precisa aprender a aprender e desenvolver um princípio que é fundamental e determinante na sua vida acadêmica a distância: a autonomia. Assim, será do aluno a escolha do melhor horário de que dispõe para ler o material ou para postar no fórum. Todavia, terá necessariamente que reservar um horário diário para tanto, sob pena de não conseguir concluir o curso.

No curso Gestão de Pessoas, são propostos também estudos de casos sobre situações de conflito. Desse modo, de forma escrita, o aluno se coloca no lugar daquele que está passando pela situação e busca o melhor modo de solucionar o caso, com base em sua experiência de vida e nos materiais disponíveis no curso.

É interessante observar como os colegas juízes aprendem uns com os outros durante os cursos a distância e presenciais. Há troca de experiências, bem como troca de indicações de livros e filmes. A verdade é que vivemos os mesmos dilemas diários e crescemos muito com as experiências de nossos pares.

De fato, passamos por um momento histórico no nosso Poder Judiciário, e a Enfam está sendo protagonista desse processo, propondo a mudança por meio da educação. Estou certa de que essa proposta nos conduzirá a um caminho de mais humanidade, ética, eficiência e fraternidade, cujos resultados serão sentidos por toda a sociedade. Que esse seja nosso legado às futuras gerações!

Notas

1. ARMYTAGE, Livingston. Leadership for judicial educators: vision for reform. Disponível em: <http://www.centreforjudicialstudies.com/publications/#ProfessionalArticles>.

2. ROBBINS, Anthony. Desperte seu gigante interior. Traduzido por: Haroldo Netto e Pinheiro Lemos. 24. ed. Rio de Janeiro: BestSeller, 2014. p. 227-235.   

3. FERREIRA; S.L.; LOBO, V.I.T. O tutor na educação a distância: que sujeito é esse. In: série proged. Salvador: ISP/UFBA, 2003. p. 1-12.

4. BEHRENS, Maria Aparecida. Projetos de aprendizagem colaborativa num paradigma emergente. In: MORAN, José Manuel; MASETTO, Marcos T. Novas tecnologias e mediação pedagógica. São Paulo: Papirus, 2000. p. 67-131.



Referência bibliográfica (de acordo com a NBR 6023:2002/ABNT):
. . Revista de Doutrina da 4ª Região, Porto Alegre, n., out. 2016. Disponível em:
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Acesso em: .


REVISTA DE DOUTRINA DA 4ª REGIÃO
PUBLICAÇÃO DA ESCOLA DA MAGISTRATURA DO TRF DA 4ª REGIÃO - EMAGIS